O texto é do jornalista Bruno Marques. O retrato é pior que o imaginado.
Lamentável!
O texto é mais longo do que deveria porque, no futebol capixaba, são diversos os problemas que temos, de natureza cultural, administrativa, de infra-estrutura… O cultural é a nossa já conhecida predileção por times de fora, em especial do Rio de Janeiro. Historicamente, o capixaba sempre se interessou menos por seus próprios clubes do que pelos grandes de fora. Isso se agravou à medida que o futebol daqui foi caindo de divisão e o intercâmbio com os principais times do Brasil foi diminuindo. Ao mesmo tempo, a população do Espírito Santo foi aumentando, com muita gente vindo de outros estados, como Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro…, onde havia e há um futebol de nível superior. Notadamente, a porcentagem do povo que se envolve com o futebol capixaba caiu muito, mesmo em relação aos anos 1990, quando a Desportiva foi duas vezes terceira colocada da Série B do Brasileirão; o antigo Linhares, semifinalista da Copa do Brasil (1994) e o Serra, finalista da Série C de 1999, aquela jogada pelo Fluminense.
Isso dificulta, mas não explica, por si só, a falência do futebol capixaba. Dificulta porque se poucos têm interesse em ver, poucos têm interesse em patrocinar. O investidor quer visibilidade. A dos clubes daqui é baixa. Então, falta dinheiro. Praticamente, os times que ganharam sobrevida foram os que conseguiram se apoiar no poder público. As prefeituras das cidades do interior deram conta de sustentar suas equipes, enquanto os dois maiores clubes, Rio Branco e Desportiva, não conseguiam esse tipo de apoio. O legado desse reinado do interior foi quase nulo. Guarapari (campeão em 1987), Ibiraçu (1988), Colatina (1990), Muniz Freire (1991), Linhares E.C. (1993/95/97/98) e Alegrense (2001 e 2002), todos eles fecharam as portas. O Colatina e o Linhares atuais são outros clubes, homônimos. Agora, em 2011, Jaguaré e Rio Bananal desistiram na véspera do Campeonato Capixaba porque suas prefeituras não os apoiaram, ao menos não com os valores que eles pediam. Essa dependência de prefeituras torna os times muito vulneráveis.
Mas a questão administrativa é, a meu ver, o ponto decisivo. A falta de credibilidade da maior parte dos dirigentes locais é muito grande. Já ouvimos casos estarrecedores de desvios de verbas (tanto de verba de patrocinadores privados e quanto de dinheiro vindo de prefeitura). Em janeiro passado, em uma conversa informal, eu mesmo e alguns colegas de imprensa tivemos o desprazer de presenciar o presidente de um clube capixaba dizer a alguns de seus pares que não havia como negar que muitos deles, cartolas, praticavam o chamado “caixa dois”. Olhando para a maioria desses dirigentes, à exceção de dois ou três, não é difícil entender porque ninguém quer investir nos clubes. Aliás, já cheguei a defender esse ponto de vista aqui no Estado, de que a verdade é que muitos clubes nem querem crescer. Alguns são apenas “meio” e não “fim”. Existem mais como um canal para captar dinheiro público do que qualquer outra coisa. Em suma: não têm o menor interesse em crescer.
Mas à falta de credibilidade adiciono um outro aspecto, que quase ninguém comenta, mas a meu ver é fundamentel também. Falta conhecimento, ciência, trabalho de “inteligência”. Não é só falta de conhecimento administrativo, não. É falta de conhecimento de futebol também, saber enxergar se um jogador é bom ou não, se um lateral, um meia, um centroavante servem ou não. Falta isso. Os clubes acabam muito dependentes do que os treinadores falam, ou também em muitos casos do que empresários impõe. Nesse último caso, também por causa da penúria financeira. Há uma semana, por exemplo, o Serra trocou de técnico, pois conseguiu apoio de um empresário paranaense que exigiu a admissão do seu treinador. Não é que o novo técnico não tenha capacidade, mas o episódio demonstra como os clubes estão reféns financeiramente. Mas o que eu gostaria de reforçar nesse ponto, é a falta de profissionais que entendam de bola, que sejam capazes de observar talentos e atraí-los. Dou como exemplo o Rio Branco deste ano. Administrativamente, julgo ser hoje o time mais evoluído, que vem passando por uma transformação positiva de três anos para cá. Mas, embora, pelo que se sabe, tenha verba suficiente para escolher quem quer para seu elenco, contratou vários jogadores piores que alguns rivais, que pagam até menos. Claramente, não soube distinguir o bom do ruim.
Já que toquei no assunto Rio Branco, aproveito para destacar, além do contexto geral do futebol capixaba, as decadências particulares de Rio Branco e a Desportiva, que estão para o Espírito Santo como Cruzeiro e Atlético estão para Minas Gerais, são os dois maiores clubes do Espírito Santo. O Vitória, que vem, na medida do possível, até sendo bem gerido e aos poucos resgatado, seria o “nosso América”, antigo, tradicional, porém com bem menos torcida. Por isso, o excluirei, por ora, dessa análise. Acredito que se tivessem competência de gestão, etc., Rio Branco e Desportiva, principalmente, por serem os times historicamente de maior potencial, poderiam estar em situação bem melhor, poderiam ter mantido seu status de clubes hegemônicos. O Rio Branco desde 2008 tem mostrado evolução nesse sentido. Em 2010, voltou a vencer um título após 25 anos. Sua decadência tem várias explicações. Ainda nos anos 1970, o clube deixou sua casa, o bairro de Jucutuquara, em Vitória. Partiu em busca do sonho de fazer um grande estádio em Campo Grande, Cariacica, município da Grande Vitória. Em 2008, o estádio, Kleber Andrade, foi vendido, sem estar concluído, ao governo estadual, para abater as dívidas do clube. O governo promete concluí-lo até 2013, para pouco mais de 22 mil torcedores. Além de deixar Jucutuquara nos anos 1970, o clube capa-preta, como é chamado, perdeu algumas de suas lideranças nos anos seguintes. De meados dos anos 1980 em diante passou a ser dirigido e/ou apoiado por políticos, bicheiros e incompetentes de modo geral. Afastou-se completamente das conquistas, mas ainda tem, aparentemente, a maior torcida do Estado.
O caso da Desportiva é um pouco diferente. Desde os anos 1980, o time viu ser reduzido o apoio que recebia da Companhia Vale do Rio Doce, mas ainda seguiu vencendo títulos estaduais e tentando voltar à Série A do Brasileirão (sua última participação foi em 1993). Assim foi até 1997, quando a CVRD foi privatizada e o apoio extinguido. Aí, ficou evidente a incapacidade de seus gestores. O time revelava muito (sempre teve essa tradição, a exemplo de Geovani, ex-Vasco, e Sávio, ex-Flamengo), mas vendia seus jovens talentos a preço de banana. Os dirigentes ferroviários não conseguiram no mercado atrair investidores. Em 1999, envolveram quase todo o patrimônio do clube, incluindo o Estádio Engenheiro Araripe, na formação do clube-empresa chamado Desportiva Capixaba, cuja divisão de ações ficou assim definida: 51% para o Grupo Villa-Forte (da área de combustíveis) e 49% para o clube de futebol, Desportiva Ferroviária. A perda de identidade foi absurda, mudou-se símbolo, nome e até cores (um verde foi incluído e sobrevive até hoje no símbolo em alusão à Frannel, rede de postos de gasolina que pertencia ao Grupo Villa-Forte, mas que faliu há alguns anos). Após a formação da Desportiva Capixaba, a queda do futebol grená foi imediata. De terceiro lugar na Série B do Brasileiro de 1998 o time foi parar na Série B do Capixaba em 2002, e sumiu completamente do mapa nacional. Voltou à elite capixava e caiu mais de uma vez, a exemplo do ano passado. Atualmente, está parada. Abriu mão de jogar a Segundinha do Capixaba. Vale dizer, que a Desportiva Ferroviária luta na Justiça para ganhar o poder de mando na sociedade, sob alegação de não cumprimento de algumas cláusulas por parte do acionista majoritário. Uma novela que ainda deve render alguns capítulos.
Outra coisa, é a parte estrutural. Nossos estádios estão completamente defasados, os que sobrou deles. O Kleber Andrade, que nunca foi concluído pelo Rio Branco, deve ficar pronto em 2013. O Engenheiro Araripe, da Desportiva, está totalmente precário, caindo aos pedaços. O clube anunciou em fevereiro um projeto de reforma que seria bancado por investidores portugueses. Mas, por aqui, após uma década de promessas, o sentimento geral é o de que só se acredita vendo. Sem citar um por um, podemos dizer que a maior parte dos estádios está em situação muito ruim, vivem sendo interditados e suas capacidades não passam de 5 mil pessoas. Fora o Estádio Conilon, em Jaguaré, há quase dez anos, e o Olímpio da Rocha, inaugurado em 2010 pelo Real Noroeste (clube recém-fundado e que está na Série B Estadual) entre os municípios de Águia Branca e Barra de São Francisco, praticamente não houve construção de estádios novos no Espírito Santo nas últimas três décadas. Se avançassem na Copa do Brasil, os times capixabas teriam de sair do Espírito Santo para mandar seus jogos. Mas nenhum clube daqui passa da fase inicial há 13 anos.
Enfim, é uma situação muito grave, que exige que vários pontos sejam atacados simultaneamente. As perspectivas não são boas, infelizmente. Desculpe se me prolonguei, mas é que são tantos problemas que fica até complicado fazer um resumo. Rs! De qualquer forma, vamos torcer para que as coisas, nem que seja aos poucos, melhorem por aqui.
DIHIT
Blog do Frederico Jota


6 Opiniões Ver opiniões Esconder opiniões
interessante esse site tambem q fala sobre a desportiva hoje
http://www.estadoesportivo.wordpress.com
fala sobre cidade jardim
É, Luciano.
Tomara que o Espírito Santo ressurja no cenário do futebol brasileiro.
Abraço
Caro Marra deixo meus parabéns pelo grande equipamento que Vc disponibiliza ao bem do nosso amado Esporte e agradeço ao Bruno pelo belissimo texto que contempla o meu desejo de maiores informes a respeito do Futebol Capixaba.
Abraço Fraternal.
Ari Bianchi.
http://www.aribianchi.blogspot.com
Olá, Ari!
É lamentável a situação, mas o espaço será sempre dado.
Gostaria que fosse de outra maneira, amigo.
Que sirva como mais um estímulo e alguma outra possibilidade de mobilização.
Abraço,
Mário Marra
Descobri por acaso do Blog do Marra, jornalista de grande credibilidade no esporte nacional. Mais surpreso ainda fiquei com a publicação de matéria sobre o futebol espiritossantense (prefiro essa forma a futebol capixaba). Sou mineiro apaixonado por futebol e como boa parte dos mineiros sem mar, desde criança frequentei o litoral espiritossantense. E não deixei de acompanhar o futebol desta generosa terra. Vibrei com o campeonato do Guarapari Esporte Clube em 1987. Chorei depois com a precariedade de seu estádio, o Davino Mattos, alugado como parque de diversões para pagar dívidas. Desejo sorte melhor ao futebol deste estado, cuja notoriedade é ter o maior número de clubes campeões.
Opa!
Obrigado, Rafael!
E o que mais me assusta é perceber que as coisas vão continuar do mesmo jeito.
Abração