Trabalhava na região central de Belo Horizonte e via vários personagens interessantes na minha rotina.
Não sei se tenho um distúrbio mental muito grande ou se por pura vontade e necessidade de criar algo, ficava o dia inteiro vendo as pessoas e tentando ver com quem elas se pareciam e quais deveriam ser seus hábitos.
Coisa de louco, eu sei, mas me divertia bastante e me ajudou a conhecer pessoas simples e muitíssimo interessantes.
Adorava colocar aquela pimentinha naqueles que se mostravam muito torcedores.
Para o Chiquinho, ascensorista da Rua Goiás e um alucinado pelo Galo, mantinha uma postura de rival. Ficava estimulando suas críticas e suas gozações. Saía do elevador com alguns argumentos engraçados e ficava pensando com muito carinho naquele personagem do meu dia-a-dia.
Com Dr. Ronaldo Manso eu tinha outra atitude. Ele, cruzeirense doente, olhava para mim e via uma oportunidade de falar mal do Atlético.
Ria, criticava e até desabafava.
Como esquecer o Marquinho?
Marquinho talvez seja o maior americano do mundo.
E com ele eu tinha que ter outro procedimento, afinal de contas, Marquinho era meu chefe.
Ainda assim, conseguia ter um bom espaço e via os planos que ele traçava para a recuperação do Coelho até o triunfo inimaginável em Tóquio.
Marquinho, Dr. Ronaldo e Chiquinho tinham paixões diferentes por cores e herois. Entretanto, se uniam na santo ofício de torcer.
Nunca passei um domingo com eles no Mineirão, mas sei que eles deviam estar lá. Fiéis.
Os três personagens bem reais que fizeram parte do meu convívio sofreram e se decepcionaram inúmeras vezes, mas mantiveram inebalável fé.
E assim é o torcedor.
A decisão da Federação Paulista de Futebol de levar os jogos finais entre Guarani e Santos para o Morumbi atende a diversos interesses, mas não faz Chiquinhos, Ronaldos e Marquinhos felizes.
O torcedor do Santos está mais acostumado a isso.
A grandeza da história construída por Pelé transformou o time praiano em um time mundial, mas o torcedor do Guarani viu seu time amargar derrotas e guardou sua bandeira por longos anos.
Agora seria a hora de reunir todos os mais interessantes personagens bugrinos em uma via sacra para o Brinco.
Os dirigentes têm seus planejamentos (os mesmos que costumam dar em nada) e são fiéis a seus números e a acordos, mas os Chiquinhos, Marquinhos e Ronaldos de Campinas dariam tudo para poderem sonhar com seu Guarani na sua casa.
O olhar romântico observado nas linhas acima pertence a quem aprendeu a respeitar a pequena alegria de quem sofre pela sua paixão.
A FPF, a FMF e todas as outras Fs olham com outros olhos e enxergam o torcedor como aquele chato que só reclama.
É uma pena, mas acredito que seja verdade.
DIHIT
Blog do Frederico Jota


1 Opinião
Concordo plenamente Mario, o que esses dirigentes fazem e uma tremenda palhacada, um desrespeito ao pobre e sempre prejudicado torcedor. Vc falou tudo e quando os torcedores mais humildes querem ver seu time numa final precisam gastar e viajar varios kms. Um absurdo isso, abracos e parabens pelo otimo blog.