Na Marra, Sem categoria — 6 de abril de 2012 21:18

O chato papel de comparar

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Aqueles jovens seminaristas de Cracóvia no início de 1939 não deviam ter a menor ideia de que o iniciante Karol Wojtila um dia sairia da Polônia para se tornar o Papa João Paulo II.

Os jogadores do Ajax nunca poderiam imaginar que aquele menino, filho da moça que trabalhava na limpeza do clube, seria um dia o grande ídolo do futebol holandês e maior jogador de todos os tempos do clube.

Aquele menino inglês, que dormiu assustado com as imagens de torcedores do Liverpool sendo esmagados em Hillsborough, sonhava ser jogador de futebol. Entretanto, Steven Gerrard não devia imaginar que um dia seria o grande representante de seu time da infância por uma década inteira.

Os passos que damos hoje podem nos levar a lugares desconhecidos e inimagináveis.
O que é apenas um caso pitoresco hoje pode um dia ser o início de uma história revolucionária.
No entanto, comtemplar o passado parece estar sempre na moda.
É nobre olhar para o passado e valorizar aquele contexto, mas olhar para o passado e esquecer que o presente é vivo e pode ser bom, também pode significar um aprisionamento cego no que já se foi.

É óbvio que os passos e os erros de ontem indicam direções.
Mais claro ainda deve ser a honra e a gratidão por quem ousou escrever a história com brilho.
Mas será que nada está sendo escrito hoje?
A história resolveu ter um hiato justamente quando eu e você estamos vivos?
Vivemos em plena época de iPads, iPhone, Spielbergs, Guardiolas, evoluções magníficas e ainda assim eu devo acreditar que “o sinal está fechado pra nós”?
Apenas o passado tem valor?
“Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação”.

Apaixonados, presos ao passado e agitadores se deliciam com comparações entre Pelé e Messi.
Obcecados pela simples discussão, não se permitem curtir os tempos e os gols de cada um.
Quantos cabelos brancos Pelé e Messi ganham a cada acalorada campanha?
Mas é certo que a audiência aumenta quando o programa compara.
É certo também que o blog ganha acessos.
Talvez seja igualmente certo que mais burros nós ficamos.

Presos a indescritíveis e até indesculpáveis valores, muitos também se negam a ver o que Neymar tem feito.
Muitos se esquecem de ver o que fizeram na juventude e tratam de julgar a pessoa.
A cegueira é tanta que desprezam o que o jogador faz em campo e apontam o dedo para acusar o que o menino já fez.
Os mesmos aplaudiram a rebeldia de outros, mas não toleram o sucesso de quem chega.
“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos
ainda somos os mesmos”.

Parece ser gostoso maltratar nossos dias.
É certo que são dias de pouco amor, de muito suor e de individualismos exacerbados.
São muitos espinhos, mas existem rosas.
Sem dar um F5 nos conceitos, a Alemanha ainda é robótica no futebol, a Espanha é fraca e o Brasil representa a malícia e a ginga.
Nem percebem que o Uruguai cresceu e preferem relacionar o futebol dos vizinhos a um empoeirado Maracanazo.

Quem despreza o passado corre sério risco de não entender o presente, mas a outra via também existe.
Viver apenas do saudosismo não nos permitiria reconhecer João Paulo II, Cruyff, Gerrard e também Messi e Neymar.
É incrível, “mas o novo sempre vem”.

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